segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Do Sertão Baiano para o Interior Paulista

Foi no final do século XIX que meus ancestrais chegaram ao interior de São Paulo, deixando o sertão baiano, onde ficaram por algumas gerações e mais de 100 anos após a chegada ao Brasil vindos de Portugal. O movimento destas famílias não foi isolado, acompanhou um movimento migratório significativo e foi motivado por condições climáticas e econômicas, as mesmas que resultaram em tantos outros movimentos populacionais na história da humanidade.

Foram 3 os fatores que nos trouxeram ao interior de São Paulo: As constantes secas no sertão baiano, o declínio da mineração na região do Rio de Contas e o crescimento do Café na região Oeste do Estado de São Paulo.

As secas não eram novidade na Bahia, seu primeiro registro foi feito em 1533 pelo Padre Azpilcueta Navarro, em 1583 a seca acabou com a cana, a mandioca e a moagem nos engenhos e  até as populações indígenas se deslocavam fugindo delas. Em 1818 foi relatada em detalhes pelos cientistas europeus Spix e Martius que passaram  pela região. 

Mas a terrível seca que arrasou a região entre 1857 e 1861 superou as anteriores, provocando verdadeiro caos, interrompendo as plantações e criações, provocando fome, mortes, etc. O início de nova seca em 1877 acelerou ainda mais o movimento migratório que já tinha começado.

As secas tiveram graves consequências econômicas, prejudicaram a agricultura e a pecuária, que com a decadência da mineração eram a principal atividade dos fazendeiros da região. Neste cenário as notícias vindas do Sudeste, sobre o sucesso do cultivo do Café começaram a despertar o interesse do meu tataravô, Leonino Xavier Cotrim.

O Café que já havia feito fortunas no Vale do Paraíba, tinha migrado a partir da década de 1870 para o interior de São Paulo, com o atrativo da terra roxa, na região Oeste do estado. Foi nessa região, mais precisamente em São Carlos que Leolino comprou em 1877 a Fazenda Conceição.

A mudança aconteceu em 1878, junto com a esposa (minha tataravó Ludgeria Pereira Costa), seis filhos, um neto, mais alguns parentes e um grande número de escravos. Partiram da Fazenda Lagoa da Pedra em Caetité no dia 7 de fevereiro e chegaram em São Carlos em 10 de Abril, mais de 60 dias na estrada, ou melhor, nas trilhas que atravessavam matas e rios nos estados da Bahia, Minas Gerais e finalmente São Paulo. Logo depois a família se mudaria para Pitangueiras.

O genro de Leolino, Candido Spínola de Castro (meu trisavó) e a esposa dele Arlinda Spínola de Castro (minha trisavó) vieram logo depois em 1880, ficaram primeiro em  São Carlos, moraram depois em Barretos, Jaboticabal e Bebedouro, até estabelecerem-se em São José do Rio Preto. Ao contrário do sogro, o Coronel Spínola, como Cândido era chamado, não era agricultor, preferia a vida na cidade, mas dele falarei mais tarde.

O café também atraiu para o interior de São Paulo, Urbino de Oliveira Guimarães, o Major Urbino, meu trisavô que veio depois em 1899, quase no final do século, nesta época já haviam muitos parentes e amigos por lá, seu tio Manuel Cândido de Oliveira Guimarães, era fazendeiro em São Carlos e até seu filho, meu bizavô, Olindo de Oliveira Guimarães já tinha vindo com a sua avó Ana Amélia de Moura Albuquerque (minha trisavó) para Pitangueiras por volta de 1885.

Sobre a viagem do Major Urbino e sua família existe um relato bem detalhado, graças a Otília de Oliveira Guimarães, uma das filhas dele, que escreveu um diário da viagem e a Mario Mazzei Guimarães, que transcreveu este diário.

A viagem começou em 08 de Junho, na Lagoa do Timóteo e terminou dia 13 de Agosto  em Casa Branca, foram depois para a Fazenda Maracaju, de Antonio Moura e Albuquerque (onde provavelmente estava meu bizavô Olindo) em Santa Cruz das Palmeiras, passaram mais alguns dias na fazenda de Leolino Xavier Cotrim e foram então instalar-se na nova fazenda da família, a Santa Octacília (nome em homenagem a filha que morreu durante a viagem) no dia 23 de Março de 1900. A comitiva reunia cerca de 50 pessoas, entre familiares, guias, tropeiros, cozinheiras, etc.

A viagem não foi fácil, foram 66 dias de trilhas onde todos ficavam expostos à duras condições, como chuvas, calor, caminhos ruins e imprevistos. Abaixo transcrevo alguns trechos do diário de viagem de Otília:

”... fizemos uma viagem muito triste e contrariada ...”(entre Caculé e Rompe Terra); “...aqui chegamos ao pôr do sol, encontramos uma casa vazia e nela pousamos ...” (em Araça); “... aqui chegamos, mamãe muito cansada ...” (em Brejinho); “... arranchamos na beira do rio ...” (em Pé da Ladeira); “...passamos a noite de São João muito triste e num lugar deserto ...” (em Vacaria); “...pousamos em Juramento, caminho muito ruim ...”; “...esse dia perdemos, já tendo pousado no Cortume, voltamos para aqui ...”; ...este dia sofremos muito, caminhamos com a noite, com chuva e lama...” (Pimenta) “... chegamos ... já de noite e com chuva (Piumbi); “neste dia as meninas passaram mal ...” (São Sebastião dos Franciscos); “...hoje... foi Deus servido em levar ... minha querida irmãzinha Otacilia ... “(Ventania) Otacilia morreu com sete anos incompletos.”


Fontes:

Sobre as secas na Bahia: http://www.ppgh.ufba.br/IMG/pdf/As_Secas_da_Bahia_do_Sec_XIX_-_Graciela.pdf (Tese de mestrado de Graciela Rodrigues Gonçalves)

Série de artigos escritos por Mario Mazzei Guimarães em 1990


Um comentário:

  1. Você tem o relato completo da viagem? Poderíamos por no site (que a propósito tem uma máscara mais simples - www.familiacotrim.com.br) Fale comigo pelo email do site. Abs. Francisco

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